15 de fevereiro de 2011

Margaret Atwood

Publicado na Time Out em Outubro de 2010:


Órix e Crex

****

Margaret Atwood

Bertrand

O Homem das Neves é um destroço vivo da civilização, uma relíquia num mundo pós-apocalíptico. Dantes, ele chamava-se Jimmy e vivia em evoluídas cidades-fortaleza, onde as experiências genéticas não conheciam limites. Para lá dos muros ficava a plebelândia, uma Nova Nova Iorque que tomou o lugar da antiga metrópole quando a subida dos mares engoliu vastas superfícies continentais. Como é hábito na sábia escrita de Margaret Atwood, as histórias de Jimmy e do Homem das Neves vão-se desenrolando alternadamente, correntes paralelas que se aproximam lentamente até um inevitável encontro nas últimas páginas.

Este último homem dá por si como uma espécie de guru e intermediário divino de uma nova raça pós-humana de laboratório. Os crexianos são todos esculturais, não têm pêlos, exalam um aroma a citrinos, são vegetarianos e vivem até aos 30 anos. Foram criados por Crex, o melhor (e único) amigo de Jimmy, mas cabe a este inventar uma cosmogonia qualquer que “explique” à nova espécie a sua origem e identidade. Nesta patranha (a analogia com a religião é flagrante e sublime), Crex ocupa o lugar de Deus e Órix, a rapariga cujo olhar apaixonou Jimmy desde que a viu como escrava sexual num vídeo de pornografia infantil, o de mestra desaparecida.

Publicado em 2003 e finalista do Booker Prize, Órix e Crex assemelha-se a ficção científica. Ainda assim, Margaret Atwood prefere chamar ficção especulativa ao que aqui fez. E o que aqui fez enfeitiça o leitor, que é transportado sem resistência por cenários onde a natureza reaprende a existir sem a intromissão do homem.

1 comentário:

P.A. Lerma disse...

Margaret Atwood tem a crónica de uma serva como único livro de S.F

depois tal como Doris Lessing fez ficção comercial em massa sem grande sumo

de resto antologias de f.c sem o mito do criador desde o R.U.R à torre de vidro

desde as criações Vogtianas
às do Philip Jose Farmer

o término de vida aos 30 anos também existe em muitos livros e inclusive num filme neo malthusiano

porquê os 30...o máximo o apogeu físico e de potencial intelectual?

o aroma a óleos aromáticos vegetais num animal
também roça a liberdade ilógica da pseudo fc já agora
aroma a coca-cola

ou como no Ophiucus de John Varley
Ofiuco seres humanos geneticamente alterados

bifes de carne humana com sabor a banana e buracos negros anãos por todo o lado e troca de sexo como os peixinhos

e isto era anos 70
1973 ou 75?

30 anos depois é um plot muito vulgar