4 de janeiro de 2010

Time Out 117 & 118

Time Out 117:

Melhores discos internacionais, portugueses e de jazz & clássica de 2009.

Alicia Keys


Time Out 118:

Catarina Wallenstein
Aos 23 anos, já contracenou com Catherine Deneuve e foi musa de Manoel de Oliveira. Em 2010, Catarina Wallenstein vai andar pela televisão envolvida em histórias de vampiros. É uma actriz destemida, magnética. E canta.
Se alinhavasse uma lista de desejos para 2010, desencantar umas horas suplementares de sono estaria no topo dos desejos de Catarina Wallenstein. Mas coisa rápida. Falar com a actriz (e cantora, sobretudo de ópera) de 23 anos, que transporta um apelido com longa e excelente reputação nos palcos portugueses, é como experimentar a periferia de um turbilhão.
O ano 2009 trouxe Catarina Wallenstein por duas vezes para as salas de cinema, noutros tantos papéis com pouco mais em comum do que a intensidade magnética do seu olhar. Foi uma Mariana de Cruz silenciosa mas abnegada em Um Amor de Perdição, de Mário Barroso; e a mulher que Manoel de Oliveira coloca num subtil pedestal em Singularidades de uma Rapariga Loura. Estas composições juntam-se ao par de filmes em que Catarina participou em 2007 (Lobos, de José Nascimento; e Après Lui, de Gaël Morel, com Catherine Deneuve no papel principal), formando um corpo de actuações no grande ecrã muito distintas. “Eu queria que fossem ainda mais distintas. Não quero fazer de miúda apaixonada e super-querida e super-fofinha [risos]. Queria fazer de má, de perversa.” Catarina Wallenstein não corre o risco de encalhar em personagens estereotipadas: a única “menina ingénua, a descobrir a sedução, a fazer olhinhos” que nomeia é a Júlia Perestrelo que encarnou na série A Vida Privada de Salazar. As suas passagens pela televisão têm-se focado em “projectos curtos, onde tenho um pouco mais de tempo do que nas novelas. Acabei agora de gravar o Destino Imortal para a TVI, que são seis episódios, e até pôr a personagem nos carris aquilo mete um bocado de medo, porque percebe-se que a exposição vai ser maior, as audiências são enormes… Assustam-me os horários nobres, assusta-me a imprensa cor-de-rosa”. Destino Imortal estreia-se em 2010, tem Maria João Luís, Rogério Samora e Pedro Barroso no elenco, e é uma espécie de história de amor que mete vampiros e seres humanos fora do normal.
Catarina Wallenstein decidiu ser actriz aos 17 anos. Até aí, a ideia era seguir o caminho musical traçado pelos progenitores: “A minha mãe é cantora lírica. Chama-se Lúcia Lemos e é professora de técnica vocal. O meu pai [Pedro Wallenstein] é contrabaixista na Orquestra Sinfónica Portuguesa. Toquei violoncelo durante uns anos, mas queria era ser cantora como a minha mãe.” Ainda fez parte de coros de ópera no São Carlos, mas um encontro meio descomprometido com o teatro alterou-lhe os planos. Todavia, Catarina não quer deixar de cantar – “lírico, fados, jazz, o que for, é para mim que eu canto”. Para ela mas não só: no Verão, alinhou na série mensal “Espontâneos do Fado”, no Museu do Fado: “Diverti-me muito. Respeito bastante o fado. Tentei fazê-lo o mais à séria que sei.”
Onde se imagina Catarina Wallenstein daqui a um ano? “Não faço ideia. Tanto aqui como na outra ponta do mundo. Vejo-me actriz; não me vejo inundada de trabalho. Mas não é por uma questão derrotista. Aquilo que me apetece defender não há na grande maioria dos trabalhos. Por isso, se me mantiver com as minhas convicções, não vou estar a trabalhar sem parar. O que não faz mal: enquanto puder sobreviver devagarinho, assim será. Quando não tiver que fazer… Tenho duas mãos, trabalho noutra coisa qualquer.”

Amamos os nomes dos filmes porno do Cine Bolso e Cine Paraíso

Odiamos enviar e receber SMS a martelo (sobretudo na passagem de ano)

King Midas Sound
Waiting for You
Hyperdub/Flur
Nunca se tinha ouvido Kevin Martin assim, tão pouco abrasivo. Para Waiting for You, o produtor londrino que ganhou fama na electrónica fabril e tóxica (nos Techno Animal) e no dancehall x grime claustrofóbico (como The Bug) juntou-se ao cantor e poeta de Trinidad Roger Robinson e à japonesa Hitomi e fez algo de uma inusitada delicadeza. Certas canções partilham o apreço pelo dub(step) desertificado de Kode9, o dono da editora Hyperdub. Noutras faixas, a voz sumida de Robinson (e o contraponto feminino) lembram sobretudo Tricky. Nos momentos mais bem conseguidos, podia estar-se a ouvir os Massive Attack dos dias chuvosos de Protection. Sucede que este é um repertório que pede uma boa relação com o conceito de melodia – pena que disso Kevin Martin ainda não perceba tanto como de texturas ou subgraves...

Scooter
Under the Radar Over the Top
Sheffield Tunes/Edel
O trio Scooter é o elo perdido entre o admirável entretenimento imutável dos Status Quo e a intensidade tecnológica dos Young Gods, mas um elo inteiramente devotado à euforia comunitária das raves, ao tecno, ao happy hardcore. O grupo é merecida e brutalmente bem sucedido na sua Alemanha, mas ao longo de 14 anos de carreira e igual número de álbuns de originais também é frequente brotarem singles de sucesso por todo o planeta. Under the Radar... sucede à obra-prima Jumping All Over the World, recuando no volume de ganchos pop alheios reciclados mas sem desleixar na imponência dos edifícios sónicos-neurológicos. Um disco menos imediato mas mais variado, entre temas com refrões em italiano, citações de Lionel Ritchie e Black e referências ao negrume dos Depeche Mode via A-Ha.

Paul McCartney
Good Evening New York City
MPL/Universal
Quase 44 anos exactos depois de os Beatles despacharem uma dúzia de canções em meia hora contra um muro de gritaria adolescente no Shea Stadium, em Nova Iorque, Paul McCartney regressou. Regressou em Julho deste ano, o ano em que anunciou que a sua próxima digressão é a última em que se mete, e instalou-se por três noites no novo em folha Citi Field, estádio que substituiu o finado Shea. Trouxe uma banda compacta e tradicional (um quarteto; sim, as orquestras e as fileiras de sopros, quando necessárias, saem dos teclados, o que pode soar esquisito, por exemplo, em “Eleanor Rigby”), um repertório que tem Beatles, Wings, McCartney em nome próprio e Fireman, e trouxe um saber estar em palco absolutamente inatacável.
É esse saber estar em palco esculpido em décadas que a realização de Good Evening New York City consegue captar com estilo mas sem especial ostentação (desta vez é elogio), e é a mais-valia de absorver a presença visual de McCartney que torna o DVD amplamente preferível aos dois discos compactos que o acompanham nesta edição – os alinhamentos de CDs e DVD têm exactamente as mesmas 33 faixas.
O filme dos concertos não inventa. Reflecte com sobriedade q.b. a magnitude do espectáculo num Citi Field gigantesco, com gente até ao céu, e um palco ladeado por ecrãs do tamanho de arranha-céus, mais um no fundo de cena por onde passam os Beatles todos, psicadelismo, fogo-de-artifício e até Barack Obama (durante “Sing the Changes”). Pelo meio também há imagens “instáveis” ao nível da plateia, incluindo a ocasional mensagem de fãs, gente a dançar ou abraçada, mais um ror de cartazes. E há homenagens a George Harrison, numa versão de “Something”, e a John Lennon, com “Here Today” e um “Give Peace a Chance” misturado com “A Day in the Life”.

2 comentários:

cjorge disse...

refrões em italiano? é uma adaptação do clássico "Ti Sento" dos Matia Bazar. Acaba por ser dos melhores temas deles mas não lhe daria mais que um 9/20

Jorge Manuel Lopes disse...

Tenho que ir ouvir isso. Obrigado. O disco-pop italiano é, por regra, óptimo.