23 de julho de 2007

Suburbia

Dificilmente arranjaria melhor guia para Lisboa com conhecimento dos dois lados da questão geográfica do que o João.

Ao jantar, depois de uma caminhada de fim de tarde pela Mouraria e Alfama, e antes da minha primeira ida a uma casa de fados, falámos das diferenças entre o conceito de suburbano no Porto e em Lisboa.

Embora já tenha ouvido a palavra empregue em tom de escárnio social e cultural no Porto, disse-lhe que, em apenas três semanas de estadia a tempo parcial em Lisboa, o recurso ao "suburbano" na capital para denominar o pacóvio culturalmente atrasado (alegadamente...) que adora tudo o que lhe enfiam pela goela abaixo e nada mais do que isso, com toda a capacidade de filtragem crítica de uma galinha bêbeda, já excedera amplamente a experiência nortenha.

O João explicou-me que há uma distinção apreciável entre a condição de suburbano em Lisboa e no Porto. É, sobretudo, uma questão de escala e de, vá lá, sedimentação social. Subúrbios há de Lisboa que são bem mais distantes e bem maiores do que os do Porto. Os de Lisboa cresceram súbita e exponencialmente. Por isso, o desenraizamento e a insularidade de quem vive nos subúrbios de Lisboa são bastante mais vincados do que no Porto.

Embora também haja muita coisa em comum entre as duas áreas metropolitanas, estou no essencial de acordo com o João. O que não faz com que deixe de sentir aquele tipo de ressentimento de classe que se sente quando, de propósito ou inocentemente, tratam as nossas raízes com o desdém das generalizações de quem se acha num patamar moral e social e cultural superior só porque nasceu ou vive ou gostaria de viver num código postal mais apropriado.

Sou suburbano com orgulho. Nasci em Miragaia, mas vivi sempre nos subúrbios do Porto (primeiro em Valadares, depois em Vilar do Paraíso). Eram sítios pobres, atrasados, literalmente sujos e piolhosos, sítios de gente embrutecida pelo trabalho mecânico vitalício e que bebia demais. Nada disso me impediu de estudar tudo o que queria estudar, de ir para a faculdade, de ter curiosidade por filmes romenos, ou música do Japão, ou livros de tipos argentinos, e de ir atrás dessas coisas. Agora são sítios anárquicos mas bastante mais desinfectados, onde todos compram na Zara e têm, consequentemente, muito melhor aspecto. São sítios de classe média (mediazinha, mediazita), mais parecidos com todos os outros sítios que os rodeiam, e cujos nativos se enfiam nos centros comerciais - barra - hipermercados à noite, ao fim de semana, nos feriados, com chuva, com sol, whatever. Nada disso me impede de continuar a procurar os filmes romenos & etc. E também gosto muito de estar em centros comerciais. Gosto de ir e de estar no Gaiashopping, no Arrábida Shopping, no Norteshopping. Devo lá ir tantas vezes como aqueles que escarnecem dos que lá vão.

Os subúrbios são sítios muitas vezes muito mais vivos do que os centros mortuários - mumificados das cidades. No Grande Porto, pelo menos, não tenho qualquer dúvida disso. Os subúrbios mereciam uma batelada de estudos como deve ser.


Música: Planet Earth de Prince.

3 comentários:

lisabel disse...

:-)

Não sei se vem a propósito, mas há também a história de os subúrbios de Lisboa (linha de Sintra, zona oriental) serem mormente urbanos e os do Porto (mais) rurais. Eu cresci em Mafamude (Gaia) e ainda hoje me pergunto onde é que está o saco para pôr a comida para as galinhas e os coelhos, quando acabo de descascar legumes ;)

armando disse...

concordamos ;)
http://overdete.blogspot.com/2006/01/arredores-crescemos-nos-arredores-na.html
abraços

Mary Lamb disse...

Os suburbios da alma sao talvez os mais significativos, nestas andancas mundanas.
beijos