15 de março de 2006

Nina Hagen

Originalmente publicado no extinto Fundo de Catálogo no Blitz em Agosto de 2003.

fundo de catálogo

nina hagen
nunsexmunkrock
CBS, 1982

Alinhamento: Antiworld; Smack Jack; Taitschi-Tarot; Dread Love; Future Is Now; Born in Xixax; Iki Maska; Dr. Art; Cosma Shiva; UFO
Produção: Mike Thorne

Jorge Manuel Lopes

Em 1981, ao quarto mês da gravidez da sua filha, Cosma Shiva, Nina Hagen diz que viu um ovni. Talvez por isso, ou talvez não, pouco tempo depois nasceria, entre Los Angeles e Nova Iorque, um disco ovni de uma intérprete ovni. Na capa desse disco, NunSexMonkRock, Nina Hagen é uma santa de lábios e unhas pintados de vermelho vivo, e ampara Cosma Shiva como o fruto de uma maculada concepção.
Nina Hagen nasceu em 1955 no que foi a República Democrática Alemã. Andou pelos filmes, teve aulas de canto e fez-se provocadora antes de se mudar para a Alemanha Ocidental em 77, onde formou a Nina Hagen Band e abanou o país à força de punk pouco convencional. Despediu a banda ao fim de dois álbuns, chamou a atenção do manager de Frank Zappa, viu um ovni e voou para a América para fazer NunSexMonkRock, um disco tão mutante e inexplicável como ela, que se apresenta como uma «cidadã do mundo, do cosmos e do além».
Para a primeira aventura a solo, Nina contou com a produção de Mike Thorne, de credenciais obtidas via Wire, e que acabara de dar forma ao crucial Non Stop Erotic Cabaret, dos Soft Cell. O resultado pode ser prosaicamente definido como o que acontece à new wave e ao pós-punk no auge de um esgotamento nervoso, um jorrar de criatividade que usa caixas de ritmos, guitarras e sintetizadores para explorar a pop sem sombra de método, festim incendiário fixado num instante, mais uma pilha de detritos coloridos do progressivo.
NunSexMonkRock é o álbum mais inclusivo dos anos 80 que o tempo não tem lembrado, Nina Hagen no incerto estado catatónico de fonte de luz que quer abraçar Tudo. Ela mais as 10 canções são panliguísticas, pansexuais, pannarcóticas, pansiderais e, sobretudo, panteístas – religiões e divindades são uma coisa só e são cada um de nós, daqui ou do espaço (em «Taitschi-Tarot», caixa de música, piano, voz e eco dentro de um carrossel cósmico, canta-se «Praying to Jah/ Buddha lalalala/ Kundalini yoga/ Is so nice»). A sua voz, desdobrada em pistas até se perder a conta, desfia um catálogo de urros, gritos, risos, gemidos orgásmicos, eclosões operáticas & um grande etc., encharcando o som como vários Dr. Jekyll & Mr. Hyde tóxica e espiritualmente convictos da sua bondosa omnipotência.
As palavras em NunSexMonkRock são tão extraordinárias e pulverizadas pela paisagem como a música. Na versão original em vinil surgem impressas como quadros de poesia gráfica frequentemente incompreensível e só tangencialmente relacionada com o que se escuta, investindo-se de um papel de agente de liberdade fonética no contexto da música popular, nos antípodas da linearidade dos cantautores ainda e sempre vigente.
«Dread Love» é uma das melhores granadas rock dos 80s, com sereias possessas e fantasmas a intrometerem-se entre o dínamo rítmico. «Future Is Now» projecta Janis Joplin num Scala de Milão em derrocada pós-guerra nuclear. «Born in Xixax» e «Iki Maska» passam sumários acordes de guitarra telecomandada por ninhos de vespas, em tensão tóxica-industrial (na segunda, Nina é um exército em estado entrópico). «Dr. Art» e «UFO» são odes dub espectrais, flutuando sem o auxílio de graves; derradeiros murmúrios saídos de um ovni, talvez aquele que Nina Hagen viu em Kioto. «Nina Nina/ Tam Kartina/ Eto Tractor/ I Motor».

Descendências:
Talon Slalom – Blevin Blectum
Namaste – Blasted Mechanism
Coisas que Fascinam – Mler Ife Dada

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